quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Considerações sobre a revolução no Egito

Do grau de ilegitimidade do regime egípcio

“É difícil para quem viva longe daqui imaginar a brutalidade da máquina de repressão policial de Estado do governo de Mubarak. O sistema depende de 1,5 milhão de policiais – quatro vezes o número de soldados do exército.” - Pepe Escobar, Asia Times, O fator Fraternidade Muçulmana.

Essa imensa quantidade de policiais deve explicar boa parte dos “manifestantes pró-regime”, que atacaram a cavalo e com chicotes os até então pacíficos manifestantes anti-Mubarak. E justo no dia em que as Forças Armadas disseram que não agiriam contra o povo.

Por esse número elevadíssimo de agentes de coerção interna, vê-se que o maior inimigo de Mubarak é o próprio povo egípcio.

Mídia ocidental

As coberturas da Al Jazeera e da sulamericanaTeleSUR – que ora colaboravam entre si - deixaram no chinelo a mídia ocidental, mostrando em tempo real os importantes acontecimentos no Cairo. A mídia brasileira, por sua vez, deu importância ao desimportante “vandalismo” (que, como temos visto, é praticado por agentes de Mubarak), como nos diz Mair Pena Neto:

A cobertura [da mídia brasileira] é indigente e se perde em atos de vandalismo, como os que atingiram museus do Egito, como se questões colaterais tivessem mais relevância que o fato em si. Estamos testemunhando a história à frente dos nossos olhos. O Egito, assim como a Tunísia, está em convulsão e prestes a originar uma transformação radical em todo o Oriente Médio, e as oportunidades oferecidas aos brasileiros de compreenderem todo o processo é reduzida por uma cobertura sem dimensão histórica e com viés norte-americano. -

Já a mídia estadunidense, diz o Azenha, está preocupada com os interesses de Israel. Para variar.

Mas a propósito: cadê a gritaria que se verifica quando o assunto é Ahmadinejad, Cuba, Hugo Chávez?

Declínio da influência ocidental no mundo

Primeiro a Tunísia, agora o Egito. As ditaduras financiadas pelos EUA no mundo árabe ameaçam ruir e poderemos em breve ver uma nova ordem, assim como a vista após a queda do Muro de Berlim.

Se os governos nacionalistas conseguirem sobreviver na América Latina; se o processo de integração regional se mantiver nesse sub-continente; se o Oriente Médio se tornar um balaio de democracias; que enorme parte do mundo não terá saído da esfera de subserviência ao Ocidente, não?

A Rússia

A observar o papel da Rússia nos próximos tempos. Alguns sustentam que, na tentativa de conter o crescimento da área de influência chinesa, Obama irá se aliar à Rússia – numa aposta semelhante à feita na década de 70, quando EUA e China se uniram contra a União Soviética.

Em troca, os russos seriam aceitos na OTAN e ficariam com caminho aberto para ter Ásia Central e Oriente Médio sob sua área de influência diplomática e econômica. Como nos diz Pepe Escobar, no Asia Times, o país de Medvedev já estreita suas relações com o um novo eixo no Oriente Médio, capitaneado por Irã, Síria e Turquia:

“A Rússia, por seu lado, apóia o novo eixo político-econômico de Turquia-Síria-Irã. […] As empresas russas Rosatom e Atomstroyexport estão concluindo a construção da usina nuclear iraniana em Bushehr. [...] já têm apalavrado um acordo para construir uma usina nuclear na Turquia, negócio de 20 bilhões de dólares.” - O Eixo Irã-Turquia-Síria

No que diz respeito aos EUA, ter de ceder aos russos é um sinal de declínio no império ianque. O Ocidente, em decadência, tentará “premiar” Rússia e Turquia com a insígnia de “ocidentais” – o convite para a OTAN é sinal disso.

Quanto ao Oriente Médio, será interessante observar a situação de Israel depois que a ditadura no Egito cair. Caso surja um governo democrático no país dos faraós, provavelmente o novo eixo acima citado será fortalecido com a presença do Egito. E qual seria a relação da Rússia, madrinha do eixo, com os israelenses?

Parece haver um consenso: vem temporal na horta de Israel, que pintou e bordou enquanto os EUA eram hegemônicos. Esperamos que essas mudanças no Oriente Médio tragam a libertação do povo palestino do jugo sionista.

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